Mentiras sinceras

Quando pequenos, a mamãe ensina que mentir é feio e que, sob qualquer hipótese, devemos sempre falar a verdade. Criança obediente não ousa contrariar a mamãe, e, então, sai mundo afora disparando verdades. Favor não confundir sinceridade com falta de educação. Este último não há mamãe que tolere.

Daí a criança obediente cresce, e cultiva o velho hábito de falar sempre a verdade. Se foi a mamãe que ensinou só pode funcionar; mãe não mente, esqueceu? Mãe quer sempre o bem dos filhos. Mas a vida não é só bela; ela é dura até demais. E se você ainda não sabia, me desculpe por ser a portadora da notícia de que o coelhinho da Páscoa é só (mais) uma invenção da publicidade.

E nessa de vida-bela-vida-dura-vida-bela-vida-dura, criança obediente percebe que o mundo é hostil demais com os sinceros, percebe que parece não ter serventia falar sempre a verdade, quando – na verdade – quem sempre colhe os louros são aqueles em cujo dicionário sequer existe o verbete que designa aquilo que é verdadeiro. E então, criança obendiente passa a desobedecer a mãe; mamãe não precisa saber das pequenas mentirinhas cotidianas. O que criança obediente não sabe é que mamãe sempre soube que o mundo é assim, e que ela também prega suas mentirinhas cotidianas, que ela também diz que está tudo bem quando não está nada bem, e que a calça 40 ficou uma graça na prima de 80kg.

Aos poucos, adulto mezzo obediente-mezzo independente aprende o que os desobedientes chamam “convenções sociais”.

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2 comentários sobre “Mentiras sinceras

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